Como Ler Partituras: O Guia Absolutamente Completo Para Começar

Tempo de leitura: 17 minutos

Você já teve a sensação de que poderia aprender muito mais rápido a tocar aquela música se soubesse como ler partituras?

Então você tem razão…

Porque desvendar a Linguagem Universal da Música e aprender como ler partituras proporciona:

  • Liberdade de poder estudar e tocar o que quiser sem depender sempre de um professor;

  • Tocar músicas de qualquer estilo musical: Rock, samba, choro, música gospel, religiosas, erudita, Soul, MPB, Jazz, Blues;

  • Conhecer métodologias de grandes mestres do mundo inteiro;

Por isso neste artigo vou compartilhar o mapa para que você dê conta do recado e aprenda como ler as primeiras notas na partitura.

Então continue lendo este texto para descobrir:

  • Como identificar o nome das notas musicais na pauta;

  • Qual notação é usada para o seu instrumento;

  • Como praticar e memorizar a leitura das notas na partitura;
Como Ler Partituras
Como Ler Partituras

Som e suas Propriedades

Antes de aprender como ler partituras, é importante esclarecer alguns conceitos porque eles vão nos auxiliar na melhor compreensão dos elementos de grafia musical.

O professor Bohumil Med em seu livro Teoria da Música afirma que:

A matéria-prima da música é o som.

Bohumil Med

Suas quatro principais propriedades são: altura, intensidade, duração e timbre

A primeira delas, a ALTURA, nada mais é do que a velocidade das frequências, ou seja, quantas vibrações por segundo um som tem.

De forma mais prática, é o que diferencia um som grave de um som agudo, simples assim.

Quanto maior for a velocidade das frequências, das vibrações por segundo, mais agudo é o som. 

A medida da altura é chamada de (Hz) Hertz.

Já a INTENSIDADE é o grau de volume sonoro, ou seja, o grau de força aplicado na nota musical.

É através da intensidade que é possível notar a diferença entre um som forte de um som fraco.

Agora, o som não dura para sempre, ele permeia enquanto houver vibrações. Então a DURAÇÃO é o tempo de emissão das vibrações do som.

É o que permite identificar a distinção entre uma nota longa e uma nota curta.

E por último, o TIMBRE, que é a “cor do som”, é a “identidade”, “qualidade” ou “colorido” particular do som.

Parece abstrato, mas é ele que permite notar a diferença entre o som do violão e o piano, por exemplo.

Agora que você já conhece as propriedades do som, vamos ver a seguir como a altura é representada na partitura. Então continue firme…


Notas Musicais

As notas musicais são sílabas e/ou sinais gráficos que representam a altura do som.

Embora existam dezenas de notas musicais, utiliza-se apenas 7 sílabas que se repetem a cada ciclo, são elas: Dó, Ré,Mi, Fá, Sol, Lá, Si.

Em ordem ascendente (subindo), o som fica mais agudo:

Notas Musicais – Movimento Ascendente

E em ordem descendente o som fica mais grave:

Notas Musicais – Movimento Descendente

Foi o monge Italiano Guido de Arezzo que introduziu o sistema silábico com o uso da primeira sílaba de cada verso do Hino a São João Batista.

UT queant laxis
REsonare fibris
MIra gestorum
FAmuli tuorum,
SOLve polluti
LAbii reatum,
Sancte Iohannes

Tradução:

Para que teus servos
Possam, das entranhas
Flautas ressoar
Teus feitos admiráveis
Absolve o pecado
Desses lábios impuros
Ó São João

Ouça o Hino a São João Batista:

Hino a São João Batista

De início, as notas nomeadas e usadas pelo monge pedagogo foram: UT, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ.

A nota SI foi acrescentada no século XVI, obtida da junção das inicias de “Sancte Iohannes” e a sílaba UT foi substituída por no ano de 1640 por Giovanni Battista Doni, quando o sistema original foi convensionado após uma revisão.

Interessante, não é verdade?

Agora, sim…

Aprender como ler partituras vai ser muito mais simples depois dessa introdução, então em um caminho sem volta, você vai descobrir como essas notas musicais são representadas na partitura…

Portanto, continue aqui comigo…


Como Ler Partituras

Pentagrama ou Pauta Musical

O pentagrama é um sistema formado de cinco linhas paralelas e equidistantes. É nesse conjunto de linhas e espaços intermediários que as notas musicais são grafadas.

Dois pontos importantes para considerar…

Primeiramente, tanto as linhas quanto os espaços são contados SEMPRE de baixo para cima:

Pentagrama ou Pauta Musical

E em segundo lugar, quanto mais em cima a nota é grafada no pentagrama, mais agudo é o som.

Veja o exemplo abaixo:

2ª linha e 4º espaço

A conclusão é simples, a nota escrita na 2ª linha é mais grave que a nota escrita na 4º espaço pois está em uma posição mais baixa.

Mais um exemplo:

4ª linha e 3º espaço

A nota musical grafada na 4ª linha é mais aguda que a nota grafada no 3º espaço pois está em uma posição ligeiramente mais alta.


Curiosidade: Uma pauta de quatro linhas (tetragrama) foi amplamente usada para o canto Gregoriano (cantochão) no século XII, e uma com seis linhas chegou a ser usada por alguns dos primeiros teóricos e copistas, mas foi a pauta de cinco linhas que se popularizou e tornou-se padronizada durante o século XVII.



Linhas e Espaços Suplementares

Observe que dendro dos limites do pentagrama só é possível escrever nove notas:

9 notas da pauta musical

Estamos diante de um problema porque quase todos os instrumentos têm uma extensão de notas maior.

Por isso surge o uso das linhas e espaços suplementares (ou complementares).

Esse recurso funciona como uma extensão do pentagrama pois tem a finalidade de acomodar as notas que excedem os limites da pauta.

Linhas e Espaços Suplementares

Elas podem aparecer tanto na parte superior quanto na parte inferior do pentagrama, contudo, apenas as que são estritamente indispensáveis para a leitura devem ser escritas na pauta.

Suplementares Superiores

Aqui as notas suplementares começam logo depois da 5ª linha:

1º espaço suplementar superior, depois, 1ª linha suplementar superior e assim sucessivamente, como no exemplo abaixo:

Linhas e Espaços Suplementares Superiores

Suplementares Inferiores

Vai na mesma linha de raciocínio…

As notas suplementares começam agora logo abaixo da 1ª linha do pentagrama:

1º espaço suplementar inferior, depois, 1ª linha suplementar inferior, 2º espaço suplementar inferior e assim por diante. Veja os exemplos:

Linhas e Espaços Suplementares Inferiores

Em regra não existe um limite para o uso de notas suplementares, mas é importante contar com o bom senso e evitar os excessos.

Notas acima da 8º linha suplementar deixam a partitura visualmente “poluída”, por isso a leitura fica mais difícil. Nesses casos recomenda-se a mudança de clave ou o uso da abreviatura de oitava. (Posso tratar desse assunto em um outro momento, combinado?)


A lógica da relação de altura continua a mesma:

Na medida que a posição da nota sobe, mais agudo é o som, logo, na medida que a posição da nota desce, mais grave é o som.

Veja este exemplo:

1ª linha suplementar inferior e 3º espaço suplementar inferior

A nota escrita na 1ª linha suplementar inferior é mais aguda que a nota grafada no 3º espaço suplementar inferior pois está em uma posição mais alta.

Veja esse outro exemplo:

2ª linha suplementar superior e 4º espaço suplementar superior

A nota grafada na 2ª linha suplementar superior é mais grave do que a nota escrita no 4º espaço suplementar superior porque está em uma posição mais baixa.


Perceba que apenas com o pentagrama ainda não é possível saber o nome das notas musicais. Isso acontece porque a posição da nota na pauta indica apenas uma relação de altura existente.

Ou seja, só é possível identificar qual nota é mais aguda ou mais grave que a outra, mas não o nome dela.

Por isso entra em cena agora um famoso sinal gráfico chamado de CLAVE.


Clave

Esse sinal é colocado no começo do pentagrama para fixar a altura de uma das linhas.

A clave “marca” uma das linhas da pauta musical e dá o seu nome à linha.

Existem 3 claves:

Clave de Sol
Clave de Sol
Clave de Fá
Clave de Dó

Curiosidade: O desenho das claves é resultado de transformações históricas das letras que representavam as notas sol, fá e dó:

  • Sol – letra G

  • Fá – letra F

  • Dó – letra C

Juntas elas podem ser escritas em até sete posições (linhas) diferentes.

Explico…

  • A clave de Sol é escrita apenas na 2ª linha.

  • A clave de Fá pode ser escrita na 3ª e 4ª linha.

  • E a clave de Dó pode ser escrita na 1ª, 2ª, 3ª e 4ª linha.

Vou cobrir a seguir as três claves em todas as suas posições possíveis, então continue lendo…


Como Ler Partituras na Clave de Sol

Ela é escrita na 2ª Linha do Pentagrama.

Então quer dizer que o nome da nota sol é fixado na segunda linha da pauta musical .

Nota Sol fixada na 2ª linha

Portanto, com o nome de uma das notas definido, no caso a nota sol, é possível saber o nome de todas as outras notas.

É importante salientar que, a menor distância de uma nota para outra no pentagrama é de um espaço para uma linha ou de uma linha para um espaço, então agora que você sabe que a nota escrita na 2ª linha é a nota sol, basta lembrar a ordem das notas musicais no movimento ascendente e descendente

Vamos ter o seguinte então:

Sequência de notas na clave de sol

Veja algumas formas antigas dela:

Formas antigas da Clave de Sol

Como Ler Partituras na Clave de Fá

A clave de fá pode ser escrita na 3ª e 4ª linha, ou seja, significa que ela marca o lugar da nota fá na 3ª ou na 4ª linha.

Veja como fica o nome de todas as demais notas da pauta musical com a clave de fá na 3º linha:

Sequência de notas na clave de fá na 3ª linha

Agora perceba a diferença com a clave de fá escrita na 4º linha:

Sequência de notas na clave de fá na 4º linha

Conheça algumas de suas formas antigas:

Formas antigas da Clave de Fá

Obs.: Os dois pontos da clave de fá são na verdade resquícios do traçado horizontal da letra F.


Como Ler Partituras na Clave de Dó

A “gulosa” pode aparecer escrita na 1ª, 2ª, 3ª e 4ª linha.

Uma vez marcada a linha com o nome da clave, é possível identificar o nome das demais notas musicais.

Veja como fica a sequência de notas do pentagrama na clave de dó na 1ª linha:

Sequência de notas na Clave de Dó na 1ª linha

Note a mudança com o uso da clave na 2ª linha:

Sequência de notas na Clave de Dó na 2ª linha

Agora com a nota dó fixada na 3ª linha:

Sequência de notas na Clave de Dó na 3ª linha

Por último, na 4ª linha:

Sequência de notas na Clave de Dó na 4ª linha

Veja suas formas antigas:

Formas antigas da Clave de Dó

O conjunto formado pelas sete claves (sete formas) é chamado de setticlavio.

O origem de cada clave veio da necessidade de se grafar a extensão dos tipos de voz humana.

As linhas suplementares não existiam ainda, então cada classificação vocal tinha uma clave própria.

Setticlavio com classificação vocal das claves

Cada clave e posição tem uma característica específica quanto a altura dos sons.

Então a melhor clave para representar as notas de um instrumento depende sempre da extensão de notas dele. Em outras palavras, sempre vai existir uma clave e posição que melhor representa as notas musicais de cada instrumento.

Em instantes você vai saber a do seu instrumento, por isso continue a leitura…


As mais importantes são

Clave de Sol
Clave de Sol

A clave de sol, que é típica de instrumentos de extensão médio-aguda:

Violino, bandolim, órgão, flauta, cavaquinho, oboé, piano, gaita, guitarra, trompete, clarineta, violão, teclado, saxofone, etc…

Além disso, ela é muito presente em livros de conteúdos mais complexos de teoria musical, harmonia, improvisação, arranjo, composição etc.

Por isso é importante conhece-la mesmo que não seja a clave típica do seu instrumento.


Clave de Fá
Clave de Fá na 4º linha

Os instrumentos de extensão grave ficam por conta da clave de fá na 4ª linha.

Contrabaixo, violoncelo, tuba, trombone, fagote, piano, órgão, teclado, etc…

Percebeu que o piano, órgão e teclado apareceram duas vezes?

Isso porque têm uma extensão de notas muito grande (notas que começam no sub-grave e vão até o super agudo). Por isso fazem uso das duas claves: Sol e Fá na 4ª linha.

Se ela não é a clave típica do seu instrumento, então considere olhar com carinho pelos mesmos motivos que citei lá na clave de sol, vai por mim.


Clave de Dó
Clave de Dó na 3º linha

E a clave de dó na 3ª linha, que é típica de instrumentos de extensão médio-grave.

O instrumento mais conhecido que faz uso dela é a Viola Clássica.

Ocasionalmente, instrumentos de extensão grave fazem uso da clave de dó (geralmente na 4ª linha) porque assim evitam o uso de muitas linhas suplementares. Acontece com o fagote, trombone, por exemplo. Não é muito frequente, mas é bom ficar de olho.


Qual Clave Memorizar

Uma pergunta rotineira: “Preciso saber ler todas as claves e em todas as posições?”

No mundo perfeito, sim…

Mas naturalmente você vai ter maior contato com a clave que é típica do seu instrumento.

Não faz sentido gastar tempo e energia com a memoriação de todas as claves e em todas as posições porque são muitas variações, isso vai mais confundir do que esclarecer.

Além do mais a maioria está em desuso, então você só vai encontrá-las na teoria ou caso precise fazer transposições.


Minha recomendação é a seguinte…

Acima de tudo, comece pela clave que é típica do seu instrumento.

Em seguida considere aprender nessa ordem de prioridade:

  • clave de sol,

  • fá na 4ª linha e

  • dó na 3ª linha.

Como memorizar?

Agora é praticar!

Existe o jeito raiz e o jeito “Nutella”.

O jeito raiz é como eu fazia…

Não quer dizer que é a melhor forma, mas a tecnologia que existia era folha pautada, lápis e borracha.

Então em uma folha com o pentagrama eu escrevia várias e várias bolinhas e depois vinha escrevendo o nome das notas.

Mas hoje existem vários aplicativos de celular que você pode usar para praticar em qualquer lugar. O que é maravilhoso!

Por isso o mais inteligente é usar todos os recursos disponíveis.

Com meus alunos sempre começo com o lápis e papel e recomendo o estudo em paralelo com os apps, assim aproveitamos o melhor dos dois mundos.

Abaixo segue uma lista de aplicativos para você explorar:

1 – MusicBuddy

App MusicBuddy
MusicBuddy

Nele você pode praticar a leitura na clave de Sol e Fá na 4ª linha.

Na versão paga ele também tem opções para praticar a identificação das Armaduras de Clave e Intervalos.


2 – NOTE

App Note
App Note

O app é gratuito, mas você pode pagar para remover os anúncios.

É interessante a proposta porque ele tem duas funções: aprender e praticar.

Em primeiro lugar, na função aprender, você escolhe qual região do pentagrama deseja memorizar, ou seja, você pode escolher apenas a região das cinco linhas ou pode configurar para aprender linhas e espaços suplementares.

Já em praticar, o aplicativo sugere um teste em que ele vai mapear quais notas você precisa melhorar.

É uma pena não ter opções na clave de dó ainda, mas é muito fácil usá-lo.


3 – Jogo de Claves

Jogo de Claves

Simples, intuitivo e propõe a leitura nas três claves.

É possível se desafiar e responder a maior quantidade de notas em um determinado tempo.

E outra função interessante, é que você pode jogar em dupla e desafir um colega.

Possue uma versão gratuita e uma paga sem anúncios, mas as funções são as mesmas em ambas.

Android » Clique Aqui para acessar o GooglePlay «


Considere baixar o três e testar. Vale a pena.

Se você conhece outro que seja melhor do que esses, então me escreve o nome dele aqui nos comentários, combinado?


Como Ler Partituras Depois?

Identificar o nome das notas musicais no pentagrama é apenas o primeiro passo do como ler partituras. É o primeiro pilar do que chamo de Tríade da Fluência, porque com ele já é possível tocar as primeiras melodias.

Olhe a partitura abaixo:

Qual é a música?

Existem vários elementos que não esclareci neste artigo, mas você já pode tocar essa música só com o que aprendeu.

Ela é a partitura de uma música que quase ninguém conhece: “Parabéns pra você!”

Você já ouviu, certo?

Em suma, trouxe ela aqui para mostrar que é possível tocar as primeiras música apenas com o reconhecimento das notas musicais.

É claro que não vai ser perfeito e só funciona com músicas que você conhece.

Para tocar exatamente como está escrito ou músicas desconhecidas ou mais complexas é indispensável saber ler os outros elementos de notação musical, mas já é um começo.

Volte agora na partitura de “Parabéns pra Você” e apenas tente tocar com o conhecimento que você já tem.

Depois me escreva nos comentários dizendo que conseguiu, combinado?


Então fico por aqui…

Vou me esforçar para sempre fazer revisões e trabalhar na melhoria da escrita, mas acho que já temos o suficiente para um primeiro passo.

Se você sente que é a hora de um passo além, então vou ficar feliz em te ajudar aqui na turma do curso Leitura Musical Fluente, clique aqui para saber mais.

Bons estudos!

E até a próxima.


Referências:

MED, Bohumil. Teoria da Música. 5.Ed. Brasília, DF: Musimed,2017.

CARDOSO, Belmira; MASCARENHAS, Mário. Cursos Completo de Teoria Musical e Solfejo: 1º Volume. São Paulo: Irmãos Vitale. 

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